segunda-feira, maio 28, 2007

Bonecos de Estremoz

Um boneco de Estremoz é uma peça de cerâmica modelada segundo tipologias de trabalho secularmente repetidas e iniciadas em Estremoz, desde pelo menos o século XVII.
A produção de uma peça destas é bastante simples. Depois de modelada com uma técnica que utiliza três processos fundamentais — a bola, a placa e o rolo —a figura fica a secar vários dias, sendo depois cozida a 800º. Após a cozedura é pintada com óxidos de terra, misturados com cola (o grude é o colante tradicional), levando depois da secagem das tintas um verniz (goma laca é o tradicional) por cima, para protecção da pintura. A pintura é normalmente feita recorrendo a cores garridas e fortes, o que confere ao boneco um aspecto extremamente alegre. A arte de fazer Bonecos de Estremoz não era realizada por oleiros da então vila, mas sim por mulheres, as quais eram mesmo chamadas de «boniqueiras». São destas mulheres boniqueiras todas as peças do século XVIII e século XIX que estão no Museu Municipal Prof. Joaquim Vermelho (Estremoz), as quais atestam a sua enorme religiosidade e sensibilidade. Dada a sua pouca rentabilidade, os bonecos de Estremoz, no primeiro quartel do século XX, foram quase esquecidos após a morte de Gertrudes Rosa Marques, a única barrista que ainda os fazia naquela época. No entanto, com a fundação da Escola de Artes e Oficios de Estremoz em 1924, os bonecos reaparecem graças à acção do seu director, José Maria Sá Lemos (década de 1930).
Sá Lemos descobrira uma senhora de avançada idade (Ana das Peles) que ainda se lembrava de como se faziam estes bonecos e, assim, ajudou a salvar a tradição. Depois da morte dela, é o oleiro
Mariano da Conceição (família Alfacinha) que pega na arte, com o incentivo do director da Escola de Artes e Ofícios.
Após o falecimento de Mestre Mariano, é sua irmã
Sabina Santos que continua este artesanato. Sua esposa, Liberdade da Conceição, só anos depois é que decide dar continuidade ao legado de Mariano. Mas Sabina Santos foi, de facto, quem se destacou e o seu trabalho deu origem a uma série de novos barristas que actualmente (2006) trabalham por conta própria, como é o caso das Irmãs Flores e de Fátima Estróia.
Maria Luísa da Conceição, outra barrista ainda em actividade, aprendeu com sua mãe, Liberdade da Conceição, e seu pai, Mariano da Conceição, apenas por observação. Igualmente a trabalhar na tradição estão os irmãos Ginja, que aprenderam a conhecer o barro na Olaria Regional e depois, com o auxílio de Joaquim Vermelho, estudaram as técnicas e os modelos. Cada um à sua maneira exalta os encantos e virtudes das argilas de Estremoz. De toda a loiça de barro que se fazia nessa época, distinguem-se os púcaros que se tornaram famosos.
...
«Amor se fores à feira
Traz-me uma prenda galante
Não tragas nada de ourives
Um pucarinho é bastante.»
...
Segundo relato de Rui Pina, a Rainha Santa Isabel tinha, de estimação, um púcaro de barro de Estremoz.
Os primeiros bonecos de Estremoz foram inspirados nas figuras do Presépio.
Mais tarde começaram a fazer-se bonecos de barro, baseados nas profissões e actividades das pessoas. Assim, agrupados por áreas temáticas, distinguimos:
- Bonecos de carácter religioso (vi uma procissão que ocupava uma prateleira inteira com os andores, o padre, e todos os outros participantes);
- Bonecos de carácter simbólico (vi uma banda de música, com 18 bonecos todos diferentes);
- Bonecos que representam as profissões do Alentejo;
- Brinquedos de assobio e Miniaturas ou “Brincos”.

(Bonecos de Estremoz - mulher a fazer chouriços)

(uma oficina de artesanato, onde se fazem «bonecos de Estremoz»)

(Pousada da Rainha Santa Isabel, na Praça de Dom Diniz, dentro das muralhas do Castelo)
Ao subir a ladeira para o Castelo, dentro das muralhas, encontrei uma pequena loja muito atraente pelo seu aspecto moderno e acolhedor. Entrei e deparei-me com um moço novo que está no início da sua actividade ali, teve uma magnífica ideia, de vender os produtos e ao mesmo tempo, tem uma sala aconchegante e moderna, com as paredes pintadas de um laranja forte, contrastando com as mesas e cadeiras castanhas, que decoram aquele espaço, onde os visitantes poderão degustar os produtos que se vendem na loja: queijos típicos, vinhos da região demarcada do Alentejo, mel de rosmaninho, várias compotas caseiras de diversos sabores, chás de ervas e tantas outras delícias ali expostas.
Também vende artesanato tradicional, peças feitas de corno, mantas alentejanas, botas de pele e, adorei ver uma enorme quantidade de brinquedos antigos feitos de madeira por um artesão que tem 40 anos e vive das peças que faz: o cavalinho de madeira com uma roda, as cadeirinhas em madeira para crianças, a trotinete de madeira pintada com cores vivas…enfim, transportou-me aos tempos de infância. Prometi-lhe que ia divulgar o seu espaço, original e moderno.



(nome da casa: PÓ DE POEJO)

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24 Comments:

At 28/5/07 04:59, Anonymous hilda said...

Olá Kalinka! Gostei que "me descobriu na blogosfera" assim, também te achei!

E gostei... a história e a foto dos bonecos de Estremoz me interessaram.

Mas bom mesmo foi viajar por Alentejo pelas tuas palavras e fotos!

Beijos e boa semana.

 
At 28/5/07 08:50, Blogger Kalinka said...

A tal casinha que descobri chama-se «Pé de Poejo».

 
At 28/5/07 09:28, Blogger maresia_mar said...

Olá Kalinka
adorei o seu post,o seu relato,as suas imagens.. que rico passeio tu fizeste.. É bom dar a conhecer coisas destas. O Artesanato português não se pode perder mas preservar.. Bjhs e boa semana

 
At 28/5/07 13:21, Blogger serenidade said...

Fico sempre impressionada quando cá venho, mas na positiva, claro. Tanta coisa maravilhosa que existe em Portugal e o português dá tão pouco valor às suas imensas riquezas...

Continua a viajar e a divulgar...

Serenos sorrisos

 
At 28/5/07 17:21, Blogger Klatuu o embuçado said...

Já aprendi qualquer coisa! ;)

Dark kiss.

 
At 28/5/07 17:57, Blogger Moura said...

Obrigado pelas dicas. Já passei uns dias com os alunos do meu Clube em Évora e passámos depois por Vila Viçosa. Já vi que perdemos Estremoz, terra que só conhecia pelos mármores.
Um abraço

 
At 28/5/07 18:19, Blogger Luís Galego said...

parte da minha familia (materna) é de perto...respiro sempre melhor quando me perco por terras como Estremoz....belo trabalho o aqui apresentado!!!

 
At 28/5/07 18:32, Blogger 125_azul said...

Minha querida, deviam pagar-te para fazeres estas viagens, tanto nos fica a apetecer ir aos lugares que os teus olhos vêem!
Beijinhos

 
At 28/5/07 19:36, Blogger o alquimista said...

Adoro estas tuas viagens etnográficas...devias publicar uma livro....


Doce beijo

 
At 28/5/07 19:52, Blogger Teresa said...

Olá Kalinka! Passei só para deixar uma beijoca e dizer que não me esqueci de ti... só que o tempo tem sido pouco :(

 
At 28/5/07 22:19, Blogger Andreia do Flautim said...

Nunca tinha ouvido falar!

 
At 29/5/07 00:25, Blogger Ana said...

É bom viajar contigo... nem que seja só aqui :-)
Um beijinho.

 
At 29/5/07 00:54, Blogger Pete said...

O barro era das melhores coisas que se usava para fazer arte, mas infelizmente cada vez vai rareando mais quem se dedique a esse ofício, o que é pena.


Beijinhos e boa semana.

 
At 29/5/07 10:33, Blogger cm said...

sentir nas palavras o encanto e a descoberta...parabéns

 
At 29/5/07 10:34, Blogger Isabel-F. said...

bem interessante este teu Post... desconhecia a existência dos bonecos de Estremoz...


beijinhos

 
At 29/5/07 11:08, Anonymous pequenita said...

Os meus lábios são brancos como lagos…
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras…

Sou chama e neve branca misteriosa…
E sou talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras!

 
At 29/5/07 12:16, Blogger Mário Margaride said...

Belíssimas imagens aqui nos trazes, de Estremoz, e do seu artesanoto.

Uma excelente forma de divulgação desta arte popular, que um pouco por todo o lado está a desaparecer, com muita pena para todos nós.

Uma boa semana, e um grande beijinho

 
At 29/5/07 14:03, Blogger Ilda Oliveira said...

Olá Amiga...Bem pensado. Conheço Estremoz assim como a Casinha Pé de Poejo. Foi uma das primeiras teras do Alentejo que conheci em conjunto com Portalegre. Adoro. Aliás sem ser a minha Terra. Aliás desde criança era o melhor local para passar férias. Hoje pouco vou lá. Mas sempre que vou é aquele fortalecer de energias ...
Obrigado Amiga aqui a esta Linda Terra. Continue...
Beijo Ilda

 
At 29/5/07 14:04, Blogger Ilda Oliveira said...

Desculpa...enviei sem reler...o que escrevi...se der rectifica os erros ...Obrigado
Beijos Ilda

 
At 29/5/07 17:04, Blogger Vera said...

Uma bela viagem que nos proporcionaste e muita cultura!!!

Desculpa a minha ausência, mas a minha filha está com um problema grave no pé e não tenho tido tempo para nada, mas virei sempre que puder...)

beijinhos

 
At 29/5/07 17:42, Blogger looking4good said...

Oh que coisas bonitas. Só a descrição das guloseimas faz apetecer estar lá, para ver e saboreá-las. E as fotografias do post anterior são magníficas. Aposto que férias assim valem a pena.. neste Portugal pequeno mas multivariado e (ainda) sedutor. Para além dos excelentes posts é claro que é de saudar o teu regresso (depois da pausa merecida) à nossa companhia (através dos blogs).

 
At 29/5/07 19:52, Blogger Farinho said...

O nosso país tem costumes mt bonitos, e as nossas trdições, percorrem seculos de saberes.


beijocas

 
At 29/5/07 20:41, Blogger Paula Raposo said...

Gostei muito desta visita. Beijos.

 
At 29/5/07 22:18, Blogger Silvio Vasconcellos said...

Olá, Kalinka.

Esse tipo de artesanato migrou para o Brasil e tem sucessores por todo o nordeste.

Kalinka, depois de acabar com o uni-verso, criei um novo espaço que alia imagens, som, movimento e poesia:

http://videoeverso.blogspot.com

Enfrentando a inquietante paralisia que ocupa o verso da poesia

 

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