terça-feira, maio 23, 2006

Agora...o REALIZADOR - CINEASTA

Como adorei o filme, penso que também devo homenagear o seu realizador, aqui.
LOUIS MALLE, um cineasta sem hipocrisia (1932-1995)
Nascido em 1932, Louis Malle é um representante atípico da geração de cineastas que formaram a nouvelle vague. Embora tenha sido contemporâneo de Truffaut, Goddard e Chabrol, a santa trindade do movimento, jamais foi bem aceite pelo grupo, talvez por não se adaptar a dogmas estéticos e formais.
Mesmo descolado dos enfants terribles do cinema francês, Malle conseguiu projecção mundial realizando filmes que tocaram nos principais tabus do mundo ocidental, como a liberação feminina (Os Amantes, 1958), o suicídio (Trinta Anos Esta Noite, 1963), o incesto (O Sopro no Coração, 1970) e a pedofilia Menina Bonita (Pretty Baby, 1978).
Seu alvo principal sempre foram os arraigados costumes burgueses, que em suas obras parecem estar sustentados por uma malha fina de hipocrisia, medo e frustração.
Formado em Ciência Política na Sorbonne, Malle no início da carreira foi assistente de Robert Bresson e do pesquisador submarino Jacques Cousteau, com quem realizou o documentário O Mundo do Silêncio, de 1956, vencedor do Oscar e da Palma de Ouro.
No final da década de 60, ele retornaria ao género realizando em 16mm o revolucionário Calcutta, filme documental sem narrador.
Ascensor para o Cadafalso, de 57, foi a primeira experiência solo do director, uma incursão pela atmosfera noir parisiense, com trilha excepcional de Miles Davis e interpretação idem de Jeanne Moreau.
Daí para frente sua carreira foi até o fim pontuada de escândalos.
Os Amantes, Sopro no Coração e mesmo Perdas e Danos(RELAÇÕES PROIBIDAS), realizado em 1992, foram vítimas de cortes da censura.
Mas se há um filme capaz de resumir a rica filmografia desse director que imprimiu em seus filmes as crises do seu tempo, este é O Sopro no Coração, que reúne aspectos de diversas fases do autor, da explosão feminista de Os Amantes até a crônica colegial Adeus, Meninos. Há ainda a inquietude de Trinta Anos Esta Noite e a crítica à decadência burguesa de Loucuras de uma Primavera, de 1989, brilhante reavaliação da década de 60. Em O Sopro no Coração, Laurent (Benoît Ferreux) é um intelectual precoce apaixonado por jazz e filosofia. O pai, um protótipo do burguês decadente. Os dois irmãos ironizam (ou invejam?) a condição de favorito da mãe e empurram o perplexo garoto para o mundo dos adultos, chegando a forçar sua patética iniciação sexual. No meio de tantos machos, quem domina a cena é a mãe, Clara (Lea Massari), imigrante italiana que espana o mofo daquela que tinha tudo para ser uma família tradicional. Desejo, ciúme, raiva e inveja só são resolvidos na famosa sequência entre mãe e filho que tanta polémica provocou à época.
Mas com certeza não foi só a corajosa abordagem do incesto que incomodou os moralistas. Os ataques às insinuações libidinosas dos padres e ao snobismo dos nacionalistas tampouco passaram despercebidos, confirmando assim a eficácia da obra do director francês, capaz de responder aos tabus e às regras sociais com uma única palavra: ternura.
Louis Malle morreu em 1995, aos 63 anos, de câncer, deixando viúva a atriz Candice Bergen. Realizou trinta longa-metragens. Foi um dos raros directores franceses a firmar carreira nos Estados Unidos. Seus filmes são fundamentais para todos aqueles que um dia quiserem entender as angústias sociais que atormentaram o homem moderno na segunda metade do século XX.
Sem hipocrisias.

5 Comments:

At 23/5/06 09:27, Blogger peciscas said...

Louis Malle lembra-me os meus tempos de sócio do Cine-Clube do Porto, onde se falava muito dos cineastas da "nouvelle vague".
Nessa altura via muito cinema, coisa que hoje, por diversas razões, já não me acontece muito.

 
At 23/5/06 09:54, Blogger lena said...

Louis Malle um cineasta sem hipocrisia como muito bem descreves,
sabia da sua morte, vi alguns dos seus filmes, mas tu continuas sempre a surpreender-me pela vasta informação que nos ofereces, acabas por me prender e saciar a sede que tenho de conhecer e muitas vezes por preguiça de pesquisa, não procuro,
é mais fácil ler aqui, pois a tuas descrições são sempre excelentes
hoje o dia abriu com sol,
vem comigo até à janela, vamos ver como o dia está lindo e sorrir,
ontem o meu dia não foi muito famoso, mas eu sou piegas e uma noite bem dormida resolve tudo, acabo por acordar bem disposta e com uma vontade enorme de passear à beira mar.
levo-te comigo e sente o meu mar a salpicar-te os pés, a água está fria, mas acaba por nos aquecer enquanto passeamos e ouvimos as suas ondas a cantar para nós

beijinhos para ti doce menina, abraço-te com muito carinho

lena

 
At 23/5/06 10:36, Blogger Lumife said...

Gostei de te ver continuar a partilhar connosco os teus trabalhos.

Tens uma surpresa no "Beja"... Alguém que te envia muitos beijinhos.

Beijos

 
At 23/5/06 18:12, Blogger ruth iara said...

Quando há o engrediente ternura, este nos redime.
Desculpe a impropriedade de minha crítica anterior! Não assisti a este filme.
A sétima arte faz muito bem quando é arte realmente como se conclui que seja em teus argumentos.

Beijos!
Tudo de bom para ti!

 
At 23/5/06 19:28, Blogger Isa said...

Não conhecia muito sobre Malle. Obrigada por partilhares a informação.

Beijinhos :)

 

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